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ANN NOCENTI | Uma jornalista de McLuhan na Marvel Comics

A jornalista Ann Nocenti é uma escritora de mão cheia. E fez uma das melhores fases do Demolidor. Antes dos 30 anos, foi indicada ao Oscar das HQs americanas, o Eisner. Nos gibis americanos de super-heróis, a coisa toda basicamente funciona assim: um escritor escreve a história; um desenhista desenha a história (muitas vezes tem um artista chamado arte-finalista que finaliza com pincel os desenhos); e um editor coordena esse trabalho todo, lapidando tudo e orientando ajustes e mudanças quando necessário, para o trabalho passar pelo crivo dos donos da editora, que é quem tem a grana que banca a brincadeira toda.

Ann Nocenti nos escritórios da Marvel, nos anos 80

E uma das melhores escritoras da Marvel Comics, lar do Homem-Aranha, X-Men, Vingadores, Hulk e uma porrada de milhares de outros, foi a Ann Nocenti. Ela assumiu a revista do Demolidor a partir da edição 236, em novembro de 1986, e lá ficou até o número 292, totalizando 56 edições.

Capa de Demolidor #236 e a página de créditos, com Ann começando sua trajetória no personagem; reparem o título da história, já fugindo do lugar comum da briga ordinária entre fantasiados; os desenhos são de Barry Windsor-Smith

Foram aproximadamente 4 anos e meio de trabalho com o Demolidor. Um bom tempo para se trabalhar um personagem. E Ann foi uma maravilhosa escritora, dona de diálogos excelentes e bem inventiva em misturar diversos plots, como crime e violência desenfreada no ambiente urbano, corporações, ecologia, economia sustentável, traumas psicológicos, mulheres fortes e proeminentes, adultério, transtornos de personalidade, ameaça nuclear, sentimentos ambíguos, cidades do interior americano, cenários rurais, Ultron (sim, aquele do filme “Vingadores 2 — A Era de Ultron”), Inumanos (sim sim, aquele seriado HORRÍVEL) e até o satanás em pessoa (sim sim sim, Mefisto em pessoa). Destaque especial para a criação da vilã Mary Tyfoid, uma das várias paixões bandidas do Demolidor, e recorrente em diversos outros arcos narrativos ao longo dos anos, usada por vários outros autores.

O Demolidor na arte de John Romita Jr., e a criação de Ann, Mary Tyfoid, ao fundo, junto com o Rei do Crime, Balaço e Bullet — esses dois últimos também criação dela

Com esse estilo marrento, não demorou muito para que Ann começasse a bater cabeça com seus editores, já que não arredava o pé em seus argumentos para as histórias que escrevia. Logicamente havia outras profissionais mulheres atuando na indústria, como Lynn Varley, Mary Saverin, Louise Simonson, mas a expressividade que Nocenti conseguiu foi muito mais, já que eram os anos 80 e ter uma postura combativa assim era novidade ainda.

Hoje em dia essa nova-iorquina, que já foi editora da revista High Times, a bíblia da maconha nos EUA, tem 61 anos, e ainda está na ativa nas HQs.

Ann era muito diferenciada de outros profissionais. Enquanto escrevia gibis de super-heróis, fazia mestrado na Universidade de Columbia, trabalhando também na revista Lies of Our Times, e se cercando de livros de Marshall McLuhan, Noam Chomsky, Edward S. Herman e Walter Lippmann. Quando menina, cresceu em meio a revista do Dick Tracy (detetive), Archie (uma espécie de Turma da Mônica juvenil americana) e mais mocinha teve contato com trabalhos de Robert Crumb, um dos grandes nomes dos quadrinhos underground americano, que trabalha temas mundanos e sociais.

O primeiro trabalho de Ann na área das HQs foi em 1982, quando o editor Denny O´Neil lhe deu oito páginas na revistaBizarre Adventures #8, na Marvel Comics.

A capa de Bizarre Adventures #8, da Marvel Comics, e a página de créditos, primeiro trabalho de Ann nas HQs

A sua fase com o Demônio da Cozinha do Inferno (um dos apelidos do Demolidor) é marcada por um texto ágil e sem perda de tempo. As narrativas têm altos e baixos como uma montanha-russa, e não dá para saber onde que Nocenti quer ir até efetivamente chegarmos lá com ela. Toda a fase é muito boa, e ter os desenhos de John Romita Jr., grande desenhista em fase de aprendizado e muito inspirado, e a arte-final elegante e mais linda do mundo de Al Williamson, uma lenda dos quadrinhos americanos, torna a experiência de ler a fase de Ann Nocenti no Demolidor imprescindível. E não ter material dela em capa dura e compilações pelas editoras atuais mostra como anda nossa indústria de gibis, pelo menos aqui no Brasil.

Ann começa em Demolidor exatamente do mesmo ponto onde sua majestade Frank Miller, um dos melhores escritores americanos de HQs do planeta, terminara sua obra-prima, “A Queda de Murdock”: Matt recomeçando do zero, morando num apê bem modesto ao lado de Karen Page e sem sua licença para advogar.

Pelo trabalho, Ann teve uma indicação ao Eisner Award, o Oscar das HQs americanas, de Melhor Escritora em 1989. Concorreu com Mike Baron, que fez Nexus, pela First Comics; com William Messner-Loebs, por uma revista do Johnny Quest; com Grant Morrison e seu Homem-Animal; e com Alan Moore, e sua Piada Mortal — esses dois últimos são trabalhos icônicos da DC Comics, e frequentadores fieis de TOP 10 em lista de melhores quadrinhos por aí. A moça perdeu para Moore, o que significa dizer que perdeu um jogo de bola para o Maradona.

Infelizmente no Brasil não há publicação cobrindo na íntegra a obra de Ann, que foi espalhada no fim dos anos 80 e começo dos anos 90 na revista Superaventuras Marvel, da editora Abril. Na foto, uma pequena parte dos gibis que tenho que compõe esse período.

As histórias de Nocenti em Demolidor foram publicadas em SuperAventuras Marvel, da Editora Abril, durante o fim dos anos 80 e começo dos 90; infelizmente o material só está disponível dessa maneira

A mulher também criou com o desenhista Romita Jr. o filho de Mefisto, o demônio Coração Negro (Blackheart), personagem até hoje usado nas narrativas de terror e horror da editora; usado também no primeiro filme do “Motoqueiro Fantasma”, feito em 2005 por Mark Steven Johhson, e interpretado pelo ator Wes Bentley; bem como em jogos de luta feita pela softhouse Capcom, nos games em que Street Fighter e cia. trocam porradas com Capitão América, Homem de Ferro e outros da Marvel.

Outra criação sua, junto com o desenhista Arthur Addams, é o Longshot, aventureiro de outra dimensão com o poder de ter uma sorte incrível, e que se torna um dos X-Men na excelente fase do grupo quando residiam no deserto australiano, nos fim dos anos 80. Além do loirinho sortudo de quatro dedos, Ann bolou o vilão Mojo, um ET gordão amarelo sem pernas horroroso que vive em um mundo onde tudo se parece com uma programação de TV, e que se tornou um dos clássicos vilões dos X-Men. A banha suada aí é um ditador e escravagista, e reflete diretamente as leituras políticas de McLuhan e Chomsky feitas por Ann.

A fase dos X-Men em que Nocenti foi a editora coincide com uma das melhores do grupo, o auge criativo que transformariam os mutantes na maior força de vendas da cultura pop de quadrinhos na virada da década. Os roteiros de Chris Claremont (escritor que fez os X-Men serem o que é), e artes do Romita Jr., Marc Silvestri e arte-final de Dan Green representam o máximo da capacidade de entretenimento que folhas com páginas pintadas e letras podem oferecer (vou fazer uma matéria a respeito para expor meu ponto de vista das razões de considerar isso em breve).

Página de créditos de X-Men #232, última revista dos mutantes que Ann editou

Ela editou entre outras revistas a dos Defensores, Doutor Estranho, Quarteto Fantástico, Hulk, Excalibur, Novos Mutantes, o primeiro X-Men versus Vingadores, e escreveu histórias da Mulher-Aranha, Vingadores, Homem-Aranha, Venom e muito mais.

Além da Marvel, Nocenti trabalhou com a DC Comics, a casa do Superman, Batman, Mulher-Maravilha e outros, em diferentes revistas da linha “Os Novos 52”, um dos inúmeros reboots que a editora promove de tempos em tempos para alavancar vendas e consertar bagunças cronológicas. Em 2012 a escritora assumiu os roteiros da revista Arqueiro Verde e depois da Mulher-Gato. Em 2013, deixaria os roteiros do Arqueiro para fazer uma série da Katana, a personagem que usa espada, e que se você viu o filme do Esquadrão Suicida, deve saber quem é. Em 2014, Nocenti escreveu uma nova série para a editora, Klarion The Witch Boy.

O último trabalho de Ann Nocenti também é muito interessante. Se chama The Seeds. Para falar dela, precisamos falar da editora Karen Berger. Uma daquelas deusas que descem pra Terra e tornam a vida um pouco mais divertida por aqui. Só a trajetória dela vale outra matéria, em outra oportunidade. A mulher criou, dentro da DC um selo chamado Vertigo, onde finalmente os EUA e o mundo puderam ter HQs com outras temáticas que não a de super heróis, sob as asas de uma máquina colossal do mainstream.

Eram os anos 90. Que coragem de mulher. Ela trouxe uma gama de grandes criadores que fizeram trabalhos dos mais significativos para a mídia e para suas carreiras: o selo trazia uma mistura de nomes consagrados, oferecendo do melhor material de drama, horror, ficção, romance, terror, ação, mistério, magia, crime, tudo que você poderia imaginar que o ser humano pode criar (e ainda nem criou). Monstro do Pântano, Sandman, Preacher, 100 balas, Hellblazer, tudo nasceu por conta da Karen. Se você assiste as séries Preacher e Lúcifer, deve agradecer a Karen.

Esse passo para a indústria cultural e a mitologia pop ainda é sentida, ainda reverbera de forma significativa. Berger é uma das mulheres que realmente mudaram o mundo. Em 2013, a Warner, dona da DC, mandou Berger embora. Em 2016, a editora Dark Horse a contratou. Vai gerenciar o Berger Book. Um dos trabalhos desse selo é essa The Seeds. Desenhos do artista David Aja — que vale uma matéria própria, que estilo, que composição, que traço.

Ann e Aja se juntam para contar em The Seeds uma história passada nos EUA, onde reportagens cujos fatos são checados antes de serem divulgados estão morrendo, e onde fauna e a flora começaram a sofrer mutações. Acompanharemos uma jornalista que cruza com a maior história que já viu, e como que isso impacta esse mundo.

Eu também já vi histórias assim. A de Ann e a de Karen. Ann e Karen já trabalharam juntas na época da Vertigo, em uma revista do personagem chamado “Kid Eternidade”. Um garoto que pode chamar do além figuras históricas para lhe ajudar em suas aventuras.

Que seja eterno esse poder nas duas enquanto durar o talento delas.

Faço esta matéria no dia 7 de março de 2018.

Dia 8 é o Dia das Mulheres.

Feliz Dia das Mulheres.

Original author: Everton Rocha
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Guest
Sunday, 16 June 2019

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